GIFs e Olia Lialina

Olia Lialina, artista russa, precursora da web arte, se auto-denomina como um GIF. A ideia é apresentada na imagem "Pimp your profile", uma brincadeira simples, mas inteligente, onde a artista lança numa página em branco uma imagem JPEG dela segurando algumas notas de 500 euros e no canto o seguinte texto:

Still fun to be a GIF
But when retired 
I want to be a JPEG 
Tiled 
In the background of your profile*

Para desavisados que possam ter caído aleatoriamente nesta página, pode parecer mais uma brincadeira entre tantas outras diariamente vistas na web. Entretanto, quem acompanha o trabalho da artista desde os primórdios da internet sabe a trajetória que ela vem trilhando, na qual GIFs estão sempre presentes. É comum encontrar entre uma página e outra de sua Galeria Virtual o “Animated GIF Model”. São 3 GIFs animados da artista dançando, girando bambolê e tocando acordeom.
Em seu recente trabalho utilizando este formato de animação, a artista traz, separados em duas categorias, oficial e alternativa, seis GIFs de mulheres. Na primeira, três mulheres em poses sensuais destacam tons de amarelo, pois são todas loiras e brancas e uma usa um biquíni e sandálias dourados. Na segunda categoria, aparecem três mulheres com vestidos vermelhos, dessa vez apenas uma delas em pose sensual. 


A página foi criada como intuito de dar uma resposta ao vídeo “Animated GIFs: The Birth of a Medium”. Além desta, Olia Lialina também escreveu um pequeno texto, “Animated GIF as a medium" , elucidando os argumentos equivocados do vídeo. A artista, sempre bem humorada, inicia dizendo “como modelo de GIF animado, usuária da internet, net artista, mãe e cidadã, não posso deixar de comentar sobre o video Animated GIFs: The Birth of a Medium”. A partir daí, ela nos apresenta seu sólido conhecimento como uma das protagonistas da história da Internet e com isso compreendemos fatos importantes da rede. Ela nos diz que a Web nasceu em 1993, ou, se preferir, pode-se dizer que a gênese se deu em 1989 quando Tim Berners-Lee inventou o protocolo HTTP. Considerando a segunda alternativa, é possível dizer que a internet e os GIFs animados tem a mesma idade. Além disso, a artista recusa a ideia dos criadores do vídeo imporem a forma de pronunciar a palavra GIF. Segundo eles, se pronuncia jif porque o criador do formato pronuncia assim. Lialina mostra que, independente da forma como os desenvolvedores, criadores e fundadores pronunciam ou usam qualquer coisa, a Web é uma mídia para pessoas e, portanto, elas pronunciam da forma como acharem melhor. O artigo termina com a artista explicando o que difere um GIF animado das demais animações. Segundo ela, há duas constantes específicas do formato: o looping e a transparência. A ideia é que, com o looping, o momento existe eternamente e, com a transparência, ele pode existir em qualquer background. A habilidade de uma imagem aparecer em incontáveis contextos fez disso o sucesso que é, encerra ela. 

* Ainda é divertido ser um GIF
   Mas quando aposentada 
   Eu quero ser um JPEG 
   Lado a lado
   No plano de fundo do seu perfil
   (tradução nossa)

HTML-Movement-Library e O Colecionador de Movimentos


Ursula Endlicher, artista Austríaca, tem uma proposta curiosa na área de webarte, tentando interligar internet e performance. Seu foco é analisar os componentes estruturais e sociais da web e traduzir esses códigos e linguagens escondidos por trás de uma página para a vida cotidiana, na forma de performances e coreografias. 

Um de seus trabalhos é o HTML-Movement-Library, uma espécie de banco de dados que tem como intenção armazenar pequenos filmes e imagens de diferentes performers que usam tags html como ponto de partida para o movimento. O site convida o usuário a gravar um pequeno vídeo ou um gif animado com uma seqüência de movimentos que acredita representar melhor o conceito de uma determinada tag html.


Sabemos que uma página na internet é produzida a partir de códigos (por exemplo, o html), e que dentro dele há uma estrutura e uma hierarquia que precisa ser respeitada para que a página funcione e apareça da maneira desejada (incluindo seus textos, imagens, links, enfim, todos os elementos para que o usuário navegue). Esses documentos html possuem tags (etiquetas), que são comandos de formatação da linguagem. Cada tag forma um elemento que define uma porção do documento, e marca onde começa e termina um conteúdo específico da página. As tags, assim como todo o código html, são fundamentais para a criação e acessibilidade de uma página na internet e, ainda assim, são conceitos abstratos que não possuem uma representação real: são elementos que pertencem, exclusivamente, à internet.

A proposta de Ursula é fazer uma ponte entre o mundo real e o virtual por meio da performance. Os movimentos gravados pelos participantes traduzem códigos  html próprios do meio virtual para a realidade que, por sua vez, são recolocados na rede na forma de vídeos e gifs animados. Os movimentos partem do mundo real, mas passam a fazer parte da rede da mesma forma que os códigos originalmente o fazem. Eles precisam da internet para serem visualizados, tal qual uma tag html. 

O projeto de Ursula se aproxima de um outro trabalho, O Colecionador de Movimentos, do brasileiro Diego Mac. O Colecionador de Movimentos é um site dividido em três partes: a primeira apresenta uma coleção de minivídeos em loop, cada qual representando um determinado código, que dão origem aos trabalhos separados na segunda e terceira parte. Nesta última, os minivideos de Diego Mac são transformados em códigos que, selecionados pelo usuário, passam a fazer parte de uma nova composição. As imagens, agora dispostas à escolha do usuário, passam a relacionar-se de uma maneira única, criando, entre si, uma espécie de narrativa visual. O usuário ainda pode escolher uma trilha sonora  de uma lista disposta pelo próprio artista para acompanhar as imagens, criando uma narrativa ainda mais forte e exclusiva para cada composição formada. 



Assim como HTML-Movement-Library, os minivídeos armazenados por Diego Mac são a forma de visualizar uma idéia imaterial, "invisível" na realidade. Os movimentos ali guardados só podem ser visualizados e dispostos de forma a se relacionar enquanto pertencem ao meio da internet, onde são transformados em códigos. No espaço da web são capazes de criar uma nova linguagem - até então imperceptível no mundo real - pois passam a ser visualizados individualmente, contendo, cada um, seu significado próprio. O mais importante é que são selecionados e relacionados a partir da escolha do usuário, fazendo com que cada composição tenha uma interpretação individual. Tanto o trabalho de Ursula Endlicher quanto o de Diego Mac exploram a relação entre real e virtual, entre a compreensão de um mesmo elemento tanto num meio quanto no outro. O vídeo faz a ponte entre o movimento na realidade e a codificação dele na internet, ele transforma a interpretação corporal de um elemento imaginário em um único ícone. São trabalhos que fazem uso da performance, mas utilizam o registro em vídeo e a internet de maneira a construir uma linguagem própria, exclusiva desse meio.